Pular para o conteúdo principal

O Refluxo gastroesofágico ajudou no diagnóstico da Síndrome de Cornélia de Lange de Matins


A matéria a seguir, de Rita Araújo, do Portal Público.pt, foi publicada em 29/02/12.


Já ouviu falar em síndrome de Cornélia de Lange? A vida de Martim gira à volta dele

As doenças que se chamam raras afectam quase um milhão de portugueses. É o caso de Martim, cuja doença quase o impede de falar. A mãe só quer que ele seja um menino "igual aos outros"

Martim entra na sala a correr, sempre a sorrir. Não quer tirar a chupeta, mas rapidamente a mãe o convence a trocá-la por um chocolate. Fica muito atento a olhar para as sombras que se formam no chão, a tentar segui-las e a formar recortes novos. O Martim foi diagnosticado com síndrome de Cornélia de Lange e a confirmação genética da doença chegou há cerca de um ano. É uma das chamadas doenças raras que afectam quase um milhão de portugueses e caracteriza-se pelo atraso no crescimento e desenvolvimento psicomotor, cabeça pequena, baixa estatura e características faciais específicas, como a união das sobrancelhas ou o lábio superior fino. Pode provocar anomalias nos membros superiores, alterações gástricas, como refluxo, e problemas cardíacos.


MARTIM, SEIS ANOS: A CONFIRMAÇÃO DA DOENÇA CHEGOU HÁ UM ANO ENRIC VIVES-RUBIO


"Ouvi pela primeira vez a expressão Cornélia de Lange quando o Martim tinha nove meses", conta a mãe, que na altura vivia em Inglaterra, onde o bebé nasceu. Prematuro, nasceu de uma cesariana de emergência e seguiu para os cuidados intensivos. "Na altura ninguém me falou de síndrome nenhum, disseram-me que era um bebé pequeno", diz Ana Eça de Queiroz, 34 anos. "Não sei explicar isto, mas mal olhei para o meu filho senti que ele tinha alguma coisa." Apesar de o "instinto de mãe" lhe dizer que alguma coisa não estava bem, não sabia o que era e os médicos não confirmavam os seus receios: "Dentro de mim guardava a esperança que fosse só a minha imaginação e os meus medos, que não fosse verdade".

Mudar mentalidades

O Martim está longe de ser caso único. Estima-se que em Portugal haja entre 600 a 800 mil doentes raros, portadores de uma doença com prevalência inferior a cinco em dez mil pessoas. Hoje serão divulgados os primeiros números - ainda que preliminares - do Registo Nacional das Doenças Raras, que começou a ser feito há dois anos e pretende traçar o retrato nacional destas patologias. A presidente da associação Raríssimas, Paula Brito e Costa, refere que "é muito importante saber qual a realidade" das doenças raras e fazer com que a sociedade pense no assunto.

Este é um dos maiores desejos de Ana Eça de Queiroz: "trabalhar as mentalidades". Explica que é preciso "fazer trabalho de campo", para que um dia o seu filho "possa sair, arranjar um emprego, ter amigos". Como "os pais sozinhos não conseguem mudar nada", Ana juntou-se à Pais em Rede, uma associação que pretende ver a mudança na sociedade. Este movimento junta famílias de pessoas com deficiência e, através das Oficinas de Pais, ajuda os "pais especiais" a desenvolver competências para ajudar os filhos e promover a sua inclusão.

A doença rara de Martim só foi descoberta porque um dos sintomas - refluxo gastroesofágico - se manifestou. Depois de "muitos meses de sofrimento" em que o bebé vomitava todo o leite que bebia, os médicos fizeram o diagnóstico clínico. Ana conta que foi "um choque muito grande" mas, agora com seis anos, a criança tem poucas manifestações físicas da doença. Quanto à saúde mental, "tem um atraso no desenvolvimento global, problemas graves de comunicação e da fala". Para a família, o caminho tem sido difícil, mas não impossível. "Tem terapias [ocupacional e da fala] desde os dois anos porque, mesmo sem diagnóstico, eu sabia que o meu filho precisava de ajuda", diz a mãe.

Emigrada há dez anos e assistente social de profissão, Ana conta que quando voltou a Portugal, em 2009, se sentiu "no deserto". "É o meu país, é a minha língua, mas continuava no meio do deserto e sem saber para onde me virar." Depois de bater "a todas as capelinhas" e de receber informações contraditórias - naquilo que diz ser a "confusão total" -, foi ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Era lá que o filho tinha a consulta de desenvolvimento e julgou que seria acompanhado no hospital: "É um serviço público e o meu filho precisava de muito apoio".

Não foi isso que aconteceu, tendo a médica dito que "no hospital é só para as crianças que têm hipótese de recuperar". "Revoltada" e "triste", afirma que foi o contacto com outros pais que já tinham passado pelo mesmo que a ajudou a lutar e a "canalizar" a "muita força" que tinha. Hoje, o Martim está "bem acompanhado" e a segurança social comparticipa as consultas de terapia da fala de que necessita. Anda na escola - no próximo ano entra na primária - e "faz tudo igual aos outros meninos".

Comentários

Destaques da Semana

Cadastro de Pessoas com Síndrome de Cornélia de Lange

Está disponível neste blog um formulário para cadastro das pessoas com Síndrome de Cornélia de Lange. Essa ferramenta vai permitir o contato das famílias e, também, é a primeira ação para a realizarmos o inédito encontro brasileiro de famílias de pessoas com a Síndrome de Cornélia de Lange, em 2013. O cadastro e composto por 9 informações. É fácil de ser preenchido e está disponível no menu principal do Blog. O cadastro não ficará disponível para consulta, porém mensalmente será encaminhado uma cópia  com as atualizações a todas as pessoas cadastradas. Nos EUA, Portugal e Argentina, como exemplos, existem Fundações, Associações, grupos de famílias para apoio das famílias. No Brasil não existe qualquer forma de apoio organizado, assim a Síndrome continua sendo muito desconhecida, causando muitas dificuldades às pessoas com a SCL e às famílias, em especial, quanto se trata de saúde e educação. Caros amigos pais, ajudem simples iniciativa e caso tenham dificuldade em ...

Melissa, a princesa!

Recebemos a inscrição da Melissa, que possui Síndrome de Cornélia de Lange. Melissa é filha da Franciely e do Renan e residem na cidade de Rondonopolis, Mato Grosso. Ela nasceu no dia 1º de junho de 2012 às 16:47, com 37 semanas, mediu 40cm e pesou 1.795kg. Devido ao baixo peso, ela foi encaminhada a UTI Neonatal da unidade semi-intensiva.  Melissa, com Síndrome de Cornélia de Lange Nascimento 1/06/12 Foto: Blog: http://francielypetry.blogspot.com.br Aos 2 meses e 28 dias, pesou 2.700kg e mediu 49 cm. chegou a a mamar de 70 a 90ml de 2/2 horas usando mamadeira. Também, nessa idade, passou por exame de rotina como cardiograma, ecocardiograma e ultrassonografia tórax P.A., os resultados foram normais. Melissa,  Idade, 2 meses e 28 dias Foto: Blog: http://francielypetry.blogspot.com.br Melissa e o irmão Lohan Filipe, de 3 anos, Idade, 5 meses  - Foto: Blog: http://francielypetry.blogspot.com.br Em fevereir...

Relato de Caso: A agressividade no comportamento da pessoa com Síndrome de Cornélia de Lange

A amiga Lúcia Mussel já havia compartilhado com o nosso grupo de famílias de pessoas com Síndrome de Cornélia de Lange do Brasil a experiência em ajudar o querido Luiz Augusto (Guto). Uma das experiências que a Síndrome impõe é a agressividade. Pela importância e relevância das informações pedi a ela para disponibilizar aqui o texto.  Veja. " Sobre o Luiz Augusto que está com 37 anos, percorremos um longo caminho sobre a agressividade dele que começou em torno dos 14 anos.  Luiz Augusto (Guto), 37 anos, com Síndrome de Cornélia de Lange Antes, ele com os dois irmãos mais novos, talvez por brincarem muito juntos, não apresentou este quadro e de repente começou a nos bater o que nos assustou muito. Talvez ele tenha se sentido excluído em algumas brincadeiras com o crescimento dos irmãos e ele foi se isolando.  Começou a agredir as pessoas de casa, não importava a idade, e foi aumentando com o passar do tempo. Tomou Frontal que resolveu por uns ...